Por Ana Paula Romão
O
Reflexo no Espelho, do educador José Renato Uchôa, compartilha inquietações
contemporâneas no melhor estilo educativo político. São 57 artigos
provocativos, à queima-roupa.
Além disto, este piauiense
paraibano desnuda suas memórias (e que memórias!) de educador militante, em sua
trajetória engajada nas lutas sociais. Na sua passagem por João Pessoa, décadas
de 1970/80, atuação no movimento estudantil, na Associação do Magistério
Público da Paraíba (AMPEP) e militância na fundação do Partido dos
Trabalhadores. E, em Teresina, década de 1990, no movimento sindical do Ensino
Superior, quando professor na Universidade Estadual do Piauí (UESPI), tendo
sido presidente da ADCESP, associação Docente
O piauiense paraibano nos
convida a um passeio na história dos movimentos sociais. Onde a busca por lutas
democráticas se estabelecem nos caminhos das ruas, praças e portas de palácios
de governos oligárquicos e ostentadores dos resquícios ditatoriais civis e
militares. Reflexos de lutas! Reflexos de sonhos de lutadores e lutadoras, do
campo e da cidade.
Não somente o Sol foi
Testemunha destas práticas, mas pessoas de todas as cores: indígenas, negras,
brancas, amarelas. Todas de coração vermelho. O vermelho sentido pelo sangue
derramado dos companheiros e companheiras que tombaram na defesa pelo sonho da
liberdade. O vermelho da paixão. Daquelas que nos rubricam o corpo e a alma e
nos deixam inspirados a novos sonhos.
Sonhos trilhados. Trilhos construídos com a prática de uma educação
libertadora. Seus artigos expressam sínteses dialógicas discutidas com a sociedade.
Um propositor de mudanças. Não de propostas acabadas, mas do resultado do que
se alimentou no seio das discussões nos movimentos sociais, dos quais foi
participante direta ou indiretamente.
Faz-nos reviver Paulo
Freire, em sua Pedagogia da Esperança: “não basta ser construído para o povo,
mas com o povo”. Renato é este educador popular reflexivo, humanista, defensor
do diálogo e identificado com a solidariedade de classe, gênero e etnias
oprimidas, entre tantas outras lutas sociais, de ontem e de hoje. Guiado pelo
olhar de uma educação libertária, que reflete num espelho chamado lutas
emancipatórias, independentemente do Cassetete ou do Perfume do Gás que nos
agrida, as ideias de Renato, longe de nos sufocarem, nos ajudam a caminhar com
firmeza e ternura.
Há, ainda, em seus
escritos, uma relação desde suas memórias de criança até a chamada história do
tempo presente, de intensa afetividade, que nos comove. Nos Balequeiros e a
Educação, O Supremo na Encruzilhada ao Som do Blues. Lado B, Levanta Moçada,
seu reflexo é de partilhas. Partilhas de diferentes ideias e ideais, com
cosmologia única: o valor da amizade.
Renato defende claramente este ideal e toma partido contra as
injustiças, onde quer que ocorram. Os entrelaces de seus reflexos nos
inquietaram, e muito. Aliás, o (re) encontrei em 2013, através de seus artigos,
que povoam nossa timeline, sempre que sua produção fica no ponto! No ponto de
ganhar movimento. Correm, virtualmente, iguais aos lobos nas noites de luas,
uivando, e chamando o bando. Nem o próprio sabe mais quantos leitores já leram,
curtiram, compartilharam e se encantaram com seus artigos.
A bem da verdade, alguns
leitores ficam possessos de raiva. Os “Manés” que corroboram com o pensamento
elitista, principalmente. E, outros, mesmo do campo da esquerda, que fecham os
olhos para mudanças concretas em curso, negando tudo o que venha de governos do
PT. No velho estilo, quanto mais pedras jogar no ‘povo do PT’ mais fácil serei
notado. E, até, alguns do próprio PT, que ‘rasgaram’ seus princípios fundantes
e que se incomodam com a crítica contundente as suas práticas burocráticas e
estáticas. Mudos, diante de uma luta incessante contra o ódio às camadas
excluídas, se incomodam com falas denunciativas, por não mais serem agentes de mudança.
Mas, Renato Uchôa, não cansa. Uma de suas marcas é demarcar o terreno da
luta de classes. Compartilho e divido com o próprio esta essência. Falo de
nossas identidades com os temas aqui colocados e das cumplicidades acerca de
sua visão de mundo, da defesa dos direitos humanos, de sua paixão política,
mas, sobretudo, do afeto com o qual circunda as suas relações de amizades.
Portanto, esta não foi uma
tarefa fácil, mas sem dúvida, uma das mais especiais no momento atual.
Obrigada, piauiense paraibano, por me fazer renovar, em uma Ana, cada vez mais
encantada com o Brasil, que é nosso e, nunca mais, de apenas alguns. É a vida
de cada um, a vida de todos nós.

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