sexta-feira, 1 de maio de 2015

Revolta razoável

                                                                       
                                                                    adesporte.blogspot.com
Por Francisco Costa
 Dilma! Dilmaaaaaaaa!
Guerrilheira comunista dos infernos quer nos entregar pros Estados Unidos, você me sacaneou, eu te odeio essa sua mania desgraçada de querer ser mamãe de pobre, a Evita Perón Crioula, vai te lascar, vem aqui em Ipanema, pra ver o trânsito, até o jardineiro do meu prédio comprou carro, onde já se viu isso?
Aonde se vai tem engarrafamento, carro virou bunda, todo mundo tem, e eu tendo que bancar, comunista é uma raça desgraçada, divide sofrimento, vou visitar a minha irmã e aquele montão de pobres na fila do check in. A gente senta para esperar, e aqueles remelentinhos correndo pra lá e prá cá, não tenho paciência pra criança, ainda mais pobre. Falam alto, ficam pedindo as coisas aos pais, na época de FHC não tinha isso, isso é coisa desses comunistas que tomaram o poder, socializaram os aviões, como se fossem cargueiros ou caminhão pau de arara. Isso começou com o Lula, mas claro, pau de arara também ia se esperar o quê?
Os mercados cheios, fila nos caixas, menina. Shopping, um horror, difícil de comprar, tudo o que a gente escolhe um pobre já comprou igual, antes, e acabou esse negócio de Avon e perfume de camelô, agora só querem Cabochat de Gres Chanel número cinco, Angel... E pros homens delas não dão mais Lancaster não, garota, agora é One Million, Azzaro... Os nossos maridos já nem sabem se quem está chegando, se é a gente ou a empregada. Tudo o mesmo cheiro, mulher pobre tinha que usar é Fleur de Merde, e olhe lá, desculpe-me, amiga, a gente olha pro secador e não sabem mais quais são as nossas calcinhas e quais as da infeliz. Tudo igual, de grife, você precisa ver as unhas da minha empregada, quando ela chega à segunda feira, coisa de artista, está difícil.
Eu estava vendo agora, na televisão, os hotéis e pousadas com 80% de lotação, você acha que tem gente rica pra isso, passar três dias no bem bom, sem trabalhar? Por isso é que esse país não vai pra frente, esse monte de cata moedas levando a filharada pra passear, e ainda tem essa lei de que praia não pode ser privatizada, não pode lotear. E aí a gente tem que conviver com os farofeiros, essa Paraibada do cão, só nordestino e preto. Tem uns mulatinhos também, xexelentos, né mole, amiga, está cada vez mais difícil viver.
Você acredita que na sala do meu filho tem dois negões e uma neguinha? Letras, estão estudando letras, imagina, crioulo falando francês. Só se for pra ser diplomata no Haiti. Está brabo amiga a minha empregada agora tem direito a férias. Agora me diz como vou me virar sem ela?
O meu advogado aconselhou pra eu comprar uma cama, ela pode criar caso só porque dorme na esteira, no chão, e ainda falou que é para eu não acordá-la de madrugada, pra pegar os meus remédios. Ou fazer café, ela pode cobrar adicional noturno, você acredita nisso, menina? Esse mundo está virado, esse não é o Brasil que conheci, acredita que fui daqui a Miami com um crioulo, crioulo não, negão, sentado do meu lado, lendo?
Se ainda fosse um negro de alma branca, de extirpe, tipo Joaquim Barbosa, Obama, Neguinho da Beija Flor... Mas um ilustre desconhecido. E lendo, ainda por cima, durma-se com um barulho desses. E, para piorar tudo a Dilma ainda me estraga o feriado, me joga nessa depressão desgraçada. Telefonei pra minha irmã lá de Minas, o meu cunhado comprou outro fazendão. Está plantando soja transgênica, mas pra vender, pra uso próprio ele usa tradicional, tem medo de transgênico. Quer vir pra cidade nada, falou que lá não tem sindicato, trabalham dez, doze horas, sem reclamar. Mas como eu dizendo, chamei a minha irmã pra vir passar o feriado comigo. Ela e o meu cunhado, meu marido foi na importadora, comprou dois litros de Chivas, o meu caviarzinho, que não pode faltar. Eu sou exigente menina, um litro de Moet Chandon e água mineral francesa, também gosto muito. Acho que tem mais gosto de água que a nacional... Passou na Confeitaria Colombo, compraram docinhos, torradas... Eu fui às Lojas Americanas, comprei cada panela linda, enormes, para fazer muito barulho.
 Só com tampas pesadas, toda feliz, e agora... Agora, é difícil não chorar, menina, que ódio! O meu filho viu na internet que não vai mais ter panelaço, ela não vai à televisão, Você acredita nisso? Não vai ter panelaço! Merda! Desculpe o palavrão, amiga, quando fico nervosa perco a linha, mas não é o que eu te digo? Vou repetir: não vai ter panelaço. Para os pobres tudo, para nós... Até a nossa alegria ela acabou aí fica o marido perguntando por que vou tanto ao analista... Ele sai pra trabalhar, os meninos saem para a faculdade... Ah, minha filha, se não fosse o analista e o motel eu não sei o que seria da minha vida.
Mocra Suplicy - Socialight, mas só até ficar nervosa.


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